Noite quente, noite estrelada, voltando a pé para casa depois de um encontro com a mais querida das pessoas, quando tudo o que resta é aquela sensação de paz imensa, de grandeza de espírito, de tranquilidade da alma. Brisa gostosa, o burburinho de conversas animadas dentro das casas, um gato cruza a rua aqui, um latido de cão alarmado acolá.
A rua meio escura, perto de chegar ao destino, diminuo o passo e ao dobrar a esquina, encontro com uma vizinha que me diz:
- Menina, você não imagina o que eu acabei de ver! Três corpos desovados ali na rua, logo em frente, sem mais nem menos. Ninguém viu ou ouviu nada.
De repente, a sensação boa de outrora esvai-se de uma vez. Como pode três pessoas, três vidas apagarem-se e NINGUÉM ver nada? Será que não viram mesmo? Ou será que ignoraram por medo, por indiferença?
Provável, muito provável que não tenham ligado para a polícia por temerem serem identificados mais tarde pelos criminosos e esses desejarem vingança. Por crerem nada ter com isso, por esperar que outro faça a ligação. Talvez escovassem os dentes enquanto olhavam de relance a cena do crime. De relance, para argumentar mais tarde que não viram, propriamente dizendo, para não ficarem com a consciência pesada.
Agora, mais chocante do que isso tudo:
- Mas que horror! Difícil acreditar que em uma noite tão bonita, alguém tenha coragem de cometer um crime desses e mais difícil ainda crer que possa haver tristeza sob um luar prateado.
- É, menina, fazer o quê? É a vida. - disse, calmamente, a senhora.
É A VIDA? Essa frase ecoou no meu cérebro e no meu coração durante todo o percurso restante em direção à minha casa. Esqueci-me da indignação anterior, por ninguém ter visto ou feito nada, ardia-me agora no peito essa injustiça e anestesia social.
Injustiça por crerem que a vida seria capaz de uma crueldade dessas. A vida não permitiria que um homem estuprasse uma criancinha vestida com uma camisola e pés descalços, por exemplo, enquanto esse ser frágil chora desesperadamente, chamando pela mãe, sem entender o que acontece, sem entender porquê os que ela mais ama não vêm em seu socorro.
Essa não "é a vida".
Anestesia social, explicada pela própria frase "acontece, é a vida". Como pode um crime desse ser tratado como trivialidade? Acontece sempre e toda hora? Acontece. É normal? NÃO! E não deve ser visto como tal, essa anestesia não pode acontecer. Crimes têm que chocar, têm que ferir o sentimento das pessoas, têm que causar revolta, indignação, levantar a voz desse povo mergulhado em um mundo surreal, alienados à mídia para ver se alguém toma alguma atitude contra essas atrocidades.
Temos um cérebro que pesa um quilo e quatrocentos, infinita capacidade cognitiva, 100 bilhões de células nervosas e tudo o que podem dizer é "essa é a vida", mudar de assunto e perguntar quem foi eliminado ontem em A Fazenda?
Andam dizendo que essa é a vida e eu digo que a sua vida é você quem faz.


10:50
Wellington Rafael
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2 comentários:
infelizmente as pessoas foram corrompidas.
A complexidade da não cognição infinita e não democrática é o que pega... E mesmo se todos tivessem o mesmo poder de analisar os fatos seria possível a hipótese de que por algum motivo concreto ou abstrato aquelas pessoas mereceram morrer. Quem sabe exista um plano maior para todos e quem sabe o que nós acreditamos ser vida não é ou pelo menos não em certos momentos. Acredito muitas vezes que não vivo mas nem por isso quero morrer. Concluir uma teia de acontecimentos tão pesados é praticamente impossível sem conhecer toda a história do criminoso e da vítima ou vice-versa dependendo do ponto de vista.
Um tema que, na minha opinião é muito polêmico mas que todos gostam de ver apenas o criminoso como aquele que comete a ação...
Lucca Meneghin
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