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4.12.09

Qual é a sua vida?

Um dos recursos que mais me agradam ao utilizar a escrita é a possibilidade de passar uma imagem, criando um cenário que dispense quaisquer outras palavras, quase tão forte como uma fotografia. Para esse tema usarei, ou tentarei usar, um pouquinho desse recurso para introduzir a mensagem principal, vamos ver como fica. Conte-me depois o que achou.



Noite quente, noite estrelada, voltando a pé para casa depois de um encontro com a mais querida das pessoas, quando tudo o que resta é aquela sensação de paz imensa, de grandeza de espírito, de tranquilidade da alma. Brisa gostosa, o burburinho de conversas animadas dentro das casas, um gato cruza a rua aqui, um latido de cão alarmado acolá.
A rua meio escura, perto de chegar ao destino, diminuo o passo e ao dobrar a esquina, encontro com uma vizinha que me diz:
- Menina, você não imagina o que eu acabei de ver! Três corpos desovados ali na rua, logo em frente, sem mais nem menos. Ninguém viu ou ouviu nada.
De repente, a sensação boa de outrora esvai-se de uma vez. Como pode três pessoas, três vidas apagarem-se e NINGUÉM ver nada? Será que não viram mesmo? Ou será que ignoraram por medo, por indiferença?
Provável, muito provável que não tenham ligado para a polícia por temerem serem identificados mais tarde pelos criminosos e esses desejarem vingança. Por crerem nada ter com isso, por esperar que outro faça a ligação. Talvez escovassem os dentes enquanto olhavam de relance a cena do crime. De relance, para argumentar mais tarde que não viram, propriamente dizendo, para não ficarem com a consciência pesada.
Agora, mais chocante do que isso tudo:
- Mas que horror! Difícil acreditar que em uma noite tão bonita, alguém tenha coragem de cometer um crime desses e mais difícil ainda crer que possa haver tristeza sob um luar prateado.
- É, menina, fazer o quê? É a vida. - disse, calmamente, a senhora.

É A VIDA? Essa frase ecoou no meu cérebro e no meu coração durante todo o percurso restante em direção à minha casa. Esqueci-me da indignação anterior, por ninguém ter visto ou feito nada, ardia-me agora no peito essa injustiça e anestesia social.
Injustiça por crerem que a vida seria capaz de uma crueldade dessas. A vida não permitiria que um homem estuprasse uma criancinha vestida com uma camisola e pés descalços, por exemplo, enquanto esse ser frágil chora desesperadamente, chamando pela mãe, sem entender o que acontece, sem entender porquê os que ela mais ama não vêm em seu socorro.
Essa não "é a vida".
Anestesia social, explicada pela própria frase "acontece, é a vida". Como pode um crime desse ser tratado como trivialidade? Acontece sempre e toda hora? Acontece. É normal? NÃO! E não deve ser visto como tal, essa anestesia não pode acontecer. Crimes têm que chocar, têm que ferir o sentimento das pessoas, têm que causar revolta, indignação, levantar a voz desse povo mergulhado em um mundo surreal, alienados à mídia para ver se alguém toma alguma atitude contra essas atrocidades.
Temos um cérebro que pesa um quilo e quatrocentos, infinita capacidade cognitiva, 100 bilhões de células nervosas e tudo o que podem dizer é "essa é a vida", mudar de assunto e perguntar quem foi eliminado ontem em A Fazenda?

Andam dizendo que essa é a vida e eu digo que a sua vida é você quem faz.

2 comentários:

John disse...

infelizmente as pessoas foram corrompidas.

Theo disse...

A complexidade da não cognição infinita e não democrática é o que pega... E mesmo se todos tivessem o mesmo poder de analisar os fatos seria possível a hipótese de que por algum motivo concreto ou abstrato aquelas pessoas mereceram morrer. Quem sabe exista um plano maior para todos e quem sabe o que nós acreditamos ser vida não é ou pelo menos não em certos momentos. Acredito muitas vezes que não vivo mas nem por isso quero morrer. Concluir uma teia de acontecimentos tão pesados é praticamente impossível sem conhecer toda a história do criminoso e da vítima ou vice-versa dependendo do ponto de vista.
Um tema que, na minha opinião é muito polêmico mas que todos gostam de ver apenas o criminoso como aquele que comete a ação...

Lucca Meneghin

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