Hoje, voltando do Museu da Língua Portuguesa, no trajeto entre o terminal Lapa e o ponto em que meu ônibus passa, eu vi uma mulher, moradora de rua, deitada no chão (provavelmente o seu cantinho no mundo) com um bebezinho no colo. Ela brincava com o bebê pelado (usava fraldas, eu me lembro) e ele ria, gargalhada. Risa de bebê, uma delícia.
As pessoas passavam meio indiferentes. Não sei se indiferentes ao sofrimento, porque não parecia haver sofrimento naquele momento, ou a absolutamente tudo o que acontecia aos seus redores.
Eu não consigo ser indiferente. Aquela cena me tocou. Me chocou. Como alguém pode ser feliz daquela maneira? A criança não tem culpa, a criança não tem ideia do que acontece. Ela apenas ri. Ela não chora porque não tem um berço com brinquedinhos, talvez ela nem ligasse se o tivesse. Quanta inocência! Eu queria poder ser feliz com tão pouco.
O que mais me indignou foi eu não conseguir sentir dó daquela pseudofamília. A alegria daquela criança e o talvez da mãe por ver o bebê feliz me fez sentir podre por dentro.
Durante os 6 ou 7 passos em que minha vida esteve cruzada com a daquela mulher, eu vi que o mundo inteiro era infeliz. Éramos infelizes por acreditar que um dia vamos encontrar a felicidade. Éramos infelizes por acreditar que a felicidade é possível de se alcançar. Éramos infelizes porque buscávamos e buscamos e buscaremos sempre a felicidade onde não dá pra encontrar.
Como eu posso agora condenar uma mulher que, apesar de viver na calçada em frente ao mercado da Lapa, têm 8 filhos? A alegria de ver o sorriso de um filho deve ser o mesmo para todos os pais, mas uma gota de água no deserto vale muito mais do que no meio do mar. Se eu estivesse na situação dela, eu teria quantos filhos eu pudesse só para sentir muitas vezes o gosto daquele sorriso doce (o único açúcar de que ela vai provar na Páscoa dela). A sensação de que, apesar de tudo, é possível fazer alguém feliz.
Ter um teto pra dormir e um prato de comida na mesa é quase tudo nessa vida. O sorriso de uma cirança para uma mãe naquela situação transcende qualquer definição de vida.
Eu não sei qual é a moral que eu tenho que tirar dessa história. Talvez ela fosse mais feliz se tivesse um terço do que eu tenho, mas eu tenho certeza de que eu nunca (pelo menos ainda) não experimentei um décimo da alegria que ela deve ter sentido.
Uma criança, um sorriso nos braços. Um calor no coração.


18:28
Wellington Rafael
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